Flávio Alves Barbosa –

Ele não se encontrava aqui e nem lá.

O seu lugar mesmo era a terceira margem, porque ele sentia-sabia

Que um mundo partido em dois não era mundo, apenas partes.

Ele escolhera a terceira margem.

Muitos o acusaram por estar na terceira-margem, porque não o reconheceram como inteiro.

Na verdade, queriam vê-lo partido.

Terceira margem é um outro modo de ser-estar no mundo.

Não se está na terceira margem como se estivesse em uma das partes.

A terceira margem não está nem acima nem abaixo das partes.

Ela está no infinito.

Cruza apenas uma vez a vertical, para dizer que não está mais ali.

Foi à terceira margem, porque ali encontrou um lugar marginal.

Um lugar distante do centro e das partes.

Um lugar fronteiriço.

Um lugar pleno de risco e cheio de vida que o humano é convidado a habitar.

A terceira margem não tem espelho. À sua porta estão todos os narcisos.

E ali ficam, porque ainda não estão livres para cruzar a fronteira.

A terceira margem é o lugar da verdade de cada um, porque não há partes,

Apenas o inteiro diante dele mesmo.

A terceira margem é de lugar de toda crise, porque não há nela segurança.

A terceira margem é o lugar da vida.

A terceira margem é o lugar da vida, porque ela é um convite para a

Transparência, que é um modo diferente de viver a vida.

Transparência não significa nudez diante do mundo.

Transparência é ser inteiro, ainda que opaco aos olhos de muitos.