Espinosa definia paixões como a afeccção que um corpo sofre por outro corpo. Mais precisamente, a modificação que um corpo tem em sua potência, sua capacidade de existir. O filósofo distingue paixão de ação pela causa: na primeira, quem determina a mudança de potência é o outro, há um outro corpo que causa uma modificação em mim; já na ação, eu é que determino a mudança na minha capacidade de existir.

Ele chamou de paixões tristes aqueles encontros que diminuem a potência, enfraquecem a capacidade de existir de algum corpo. Já as paixões alegres seriam as que aumentam a potência, que promovem um ganho existencial ao corpo. Estes conceitos de Espinosa levantam duas questões fundamentais: o que seria a potência de existir? E a segunda – e mais complexa -, o que faz sua potência aumentar ou diminuir?

Potência de existir, para Espinosa, é a capacidade de um corpo afetar e ser afetado sem alterar a sua natureza, ou seja, preservando as suas características essenciais. Um corpo capaz de ser afetado pelos encontros com outros corpos, capaz de transformar os outros, sem deixar de existir enquanto tal. No caso do ser humano, esta potência resume-se a três capacidades: sentir, pensar e agir.
frioJá  o aumento ou a diminuição da potência é absolutamente singular; o que para um corpo é nocivo, para outro pode ser benéfico. Inclusive não há uma regra geral para o mesmo corpo: um alimento pode fazer bem um dia, mas não significa que será sempre assim. Nosso corpo e nossa mente estão em constante mutação, fazendo com que o resultado de nossos encontros seja sempre potencialmente variável.

A filosofia de Espinosa é um convite a nos tornarmos mais sensíveis: perceber como nosso corpo e nossa mente são afetados pelos encontros, sejam eles com pessoas, situações, ou mesmo com objetos físicos e naturais (como nos sentimos diante de certa arquitetura? E em relação à uma paisagem?).

A alegria seria uma sensação decorrente do aumento de potência, assim como a tristeza seria o resultado da diminuição de nossa capacidade de existir. Será que somos capazes de perceber a alteração de nossa potência? E de ligá-la ao evento causador?

A alegria e a tristeza seriam, portanto, um efeito, um indício de um movimento existencial, ou seja de um aumento ou uma diminuição na potência, na capacidade de existir. No entanto, ainda estamos no campo das paixões, ou seja,trama das afetações extrínsecas; ainda não é o ser que determina a si mesmo. Para isto, é preciso compreender as causas e, posteriormente, ser a causa. Aí estaremos no campo das ações, tão caras à filosofia espinosana.

É interessante frisar as semelhanças do pensamento de Espinosa com a prática clínica. A compreensão do paciente sobre as causas do que lhe acontece é um dos objetivos principais da psicoterapia, levando-o ao protagonismo de sua própria vida. Será que podemos tomar a paixão e a alegria espinosanas como indícios terapêuticos, como pistas sobre o modo do paciente se colocar no mundo e sua capacidade de organizar os encontros? Se soubermos escutar atentamente e compreender o movimento dos que nos falam, estes indícios podem auxiliar na compreensão da posição do sujeito e revelar algo sobre a abertura do ser para os encontros, ponto crucial para o processo psicoterapêutico.

Não é à toa que a filosofia de Espinosa é um dos alicerces da esquizoanálise, desenvolvida por Deleuze e Guattari. Nela, o processo psicoterapêutico é simultâneo ao movimento micropolítico; os avanços intrapsíquicos acontecem ao mesmo tempo que a mudança de atitude. Desta forma, o sofrimento pode ser fruto de algum mau encontro, e compreender o modo que ele lhe afeta é o primeiro passo para a mudança.

 

Bruno Mangolini, Tomás Bonomi e Bruno Espósito.

Fonte: http://conexoesclinicas.com.br/paixoes-alegres-e-tristes-de-espinosa-um-indicio-terapeutico/