SAÚDE BRANCA?
Usar o branco para qualificar a saúde em um país racista é um desserviço. Quem acha essa observação um melindre, precisa conhecer sobre subjetividade, etnicorracialidade e racismo. Aliás, dívida ainda existente nos bancos da Psicologia. Em um país onde não-brancos são mortos por essa condição, onde vemos não-brancos passando alvejantes em suas peles para dar fim ao sofrimento gerado pelo racismo, nomear “brancas” as ações para a saúde torna-se algo absurdo. Enfim, nomear é um ato político, não é só um jogo de palavras.

SAÚDE BRANCA E BIOMÉDICA?
A campanha Janeiro Branco não nasceu em um pequeno grupo mineiro composto de maioria psicólogos(as)? Ora, o branco asséptico está na saúde representando a medicina, não a saúde. Pessoas de branco na rua são identificadas com qual profissão? É com essa cor mesmo que quer ser representada a Psicologia na oferta de seus serviços? Se sim, você não entendeu a natureza política do “ato médico”. Uma cor não é só uma cor. Uma cor não é apenas uma explicação técnica num espectro de cores. Ela diz algo, ela informa, ela é socialmente significada, simbolizada.

SAÚDE BRANCA, BIOMÉDICA E MANICOMIAL?
A campanha branca é para promover uma “cultura da saúde mental” – assim chamam seus idealizadores – alegando que não há no país campanhas voltadas para a saúde mental. Como não? Isso é para não ser confundido o janeiro branco com a luta antimanicomial em maio? E o 10 de outubro? Falam também que a campanha é para reforçar que saúde mental não significa “apenas loucura”, que há “adoecimentos emocionais” etc. Mas o que esse argumento tem de diferente dos discursos que pedem espaços específicos para a loucura, que fazem essa cisão na saúde mental? Desserviço para a política pública na saúde mental. O movimento ético não é dizer que “há pessoas não-loucas que também precisam de cuidado”, mas que a loucura está em todos nós, customizada em nossas histórias pessoais, em nossa história coletiva. Manicomialismo pode se configurar de diferentes maneiras, explícitas ou não. Quem tem a luta antimanicomial na oferta de serviços não vacila, nem faz sofismas.

CAMPANHA BRANCA PARA QUEM, PARA QUÊ?
A Campanha branca induz a buscar saúde mental em práticas especializadas, uma vez que no material da campanha lemos que “psicólogos seriam a locomotiva da campanha” de um “trem que saiu de Minas para o mundo”. Nesse sentido, inegável que a campanha acabe por suscitar um caráter corporativo no cuidado com a saúde: procure um especialista para cuidar da sua saúde mental. Ora, fora que o acesso a serviços psicológicos ainda é restrito e elitizado em nosso país, infelizmente, campanhas que sugerem reserva de mercado na saúde não dialogam com políticas de saúde, que possuem caráter integrativo, intersetorial, inter e transdisciplinar. Há processos de saúde, inclusive, que nascem no protagonismo comunitário, no convívio cotidiano, no laço social, na retomada de direitos. Campanhas de marketing para empregabilidade de especialistas da saúde são legítimas, desde que tal intenção fique explícita no diálogo com a sociedade – embora eu entenda que reconhecimento social de uma profissão não se dá com autopanfletagem, mas com compromisso e ações de incidência na sociedade.

SAÚDE É GARANTIA DE DIREITOS.
Outro aspecto da alegação de que a campanha surgiu porque “não havia campanha para a saúde mental”, é também o caráter cartesiano de sua proposta. “Adoecimento emocional” – termo massivamente usado pela Campanha branca – não ocorre em um vácuo cultural, dicotomizado da conjuntura política, socioeconômica. E, nesse sentido, o combate ao “adoecimento emocional” já está presente em diversas campanhas ao longo do ano: além da luta antimanicomial há combate ao machismo, ao racismo, à violência contra crianças e adolescentes, à homofobia; há campanhas de apoio e de luta de direitos pela diversidade, movimento sem terra, sem teto, população de rua, comunidades indígenas, quilombolas, bem como há debates e ações frente a processos de criminalização, judicialização, medicalização, processos migratórios e tantas outras conjunturas em nosso país. Saúde não pode ser vista de maneira cartesiana: mundo subjetivo e mundo objetivo (material). Assim, a campanha branca reifica uma concepção de saúde apartada da vida vivida, da vida em sociedade. Somos sujeitos em relação.

Não há sofrimento humano que não tenha natureza sociopolítica. Desafio a quem
achar. E pessoas não costumam falar de sua saúde emocional porque há forças econômicas que promovem o individualismo, a propriedade, a privacidade, a meritocracia; porque há forças moralistas e econômicas que promovem a homofobia, o machismo, o racismo, a “propriedade” de crianças e adolescentes… e assim vai. Não há estímulo para a fala na violação de direitos. Assim, deve-se pensar saúde de maneira sistêmica e complexa, não isolá-la como se tudo dependesse do sujeito, como a campanha sugere: uma busca solitária pela felicidade pessoal, ancorada basicamente na força de vontade, quiçá, para partir na direção de um especialista, preferencialmente.

Dessa forma, não precisamos de campanhas que façam apologia ao branqueamento, à criação de manicômios simbólicos – demarcando espaços específicos de escuta para os considerados “não ou menos loucos” – tampouco que reafirmem a cor branca como a dona (ideológica) da saúde ou que façam da saúde algo restrito à vontade e ao esforço individual. O psicólogo Martin Baró já fazia a crítica nessa crença defendida por algumas psicologias de que mudando o indivíduo se mudaria a ordem social como se a sociedade fosse uma somatória de indivíduos. Não é. E saúde não se restringe à ausência de doença, ela transborda na garantia de direitos. E, em geral – e perversamente -, direitos para todas e todos costumam circular apenas entre brancos.

Cynthia Ciarallo
Psicóloga