Demóstenes Cunha Lima (cardiologista) –

Diariamente repete-se nos consultórios e emergências frases como essas: “Doutor, eu tenho prolapso”; ” Doutor, meu prolapso está doendo”; Doutor, meu prolapso palpitou a noite toda”; ” Não posso ter raiva que meu prolapso doi”.

O PROLAPSO DA VALVA MITRAL(PVM), propriamente dito consiste na modificação da arquitetura do aparelho valvular da válvula mitral (válvula que separa as duas câmaras cardíacas do lado esquerdo impedindo que o sangue reflua do ventriculo para o atrio), que proporciona um abaulamento ou movimento posterior de parte da mesma durante a contração do ventriculo, podendo ou não se acompanhar de defeito no mecanismo valvular ou seja, escapamento de sangue em sentido oposto. frequentemente apresanta-se com alteração do
tecido valvular com espessamento cahamado “degeneração mixomatosa”.

O problema sempre existiu, mas só foi compreendido da forma atual a partir da introdução dos aparelhos de ultrasom cardíaco – Ecocardiograma. Por que tanta confusão e por que tantos resultados falso positivos?

No inicio os aparelhos careciam de resolução para analise minuciosa das estruturas, além disso, não se havia estabelecido com precisão o grau de abaulamento ou deslocamento anormal da valvula para confirmar o diagnóstico. Por outro lado a curva de aprendizado dos examinadores levou ao aumento no número de resultados faso positivos e falso negativos.

O fato é que o prolapso existe e atinge cerca de 8% da população, mas apenas uma fração desses apresenta o “prolapso doença” com disfunção valvular.

Os sintomas variam desde pessoas assintomaticas até, dependendo do grau de degeneração, casos de insuficiência cardíaca passando por palpitações ocasionais, pontadas no peito, etc.

Muitas pessoas tem prolapso e não sentem nada, outras não tem prolapso e sentem palpitações e pontadas mas, o que parece certo é que aqueles que tem o PVM sentem mais do que as outras.

Frequentemente observo no meu laboratório de ecocardiografia, pacientes jovens predominantemente do sexo feminino, com diagnóstico de PVM a varios anos, conformados com esta situação, pois assim encontram uma explicação “física” para os seus sintomas (pontadas, palpitações, taquicardia), o que para eles parece ser mais confortável.

Quando um desses pacientes recebe a noticia de que na verdade tem um falso prolapso, percebemos um certo grau de desapontamento ao invez de alegria por se ver livre de uma “doença”.

Certamente a condição de portador de PVM além de trazer o conforto da explicação, trazem também ganhos secundarios na forma de atenção e cuidados de que são cercados no seu ambiente de convivio.

Por fim num breve escrito gostaria de passar a idéia de que o “prolapso” existe como doença propriamente dita numa percentagem muito pequena de pessoas e que o que se vê mais no dia a dia são pessoas com sintomatologia inespecifica de palpitações, pontadas no peito presente nos estados ansiosos em geral que encontram uma âncora material nas pequenas variações anatômicas de uma valvula cardíaca, propiciando-lhes o conforto do diagnóstico de uma doença de pequena gravidade e/ou os ganhos secundarios decorrente desse fato.

Demóstenes Cunha Lima – cardiologista e ecocardiografista