Nesse caso, o problema é fazer com que a relação seja fundamentalmente singular e que permaneça viva, conectada, evolutiva, e que entre num ritornelo psicanalítico estereotipado.
A questão é, portanto, de compreender os elementos de singularidade, não apenas no discurso do paciente, mas nas relações de transferência, de afeto.
São essas relações que vão determinar, ou não, a necessidade de intervir – mais do que interpretar, ou seja, de participar, de arriscar dizer alguma coisa.
Por exemplo, pode acontecer – penso em um paciente particular – que numa crise afetiva dramática que esfacela seu mundo, eu peça para falar com a mulher dele (algo que um psicanalista não se permitiria fazer), para criar um outro agenciamento e impedir que, da parte dela, desenvolva-se um universo de ciúme sobre o que eu não teria como intervir.
O simples fato de ver a mulher dele estabelece uma espécie de mecanismo regulador que impede essa proliferação imaginária.
Com outra paciente, que é artista, sou levado a falar daquilo que ela faz, sem me transformar em crítico de arte, mas para articular sua produção estética, com seu trabalho de anamnese, de elucidação cartográfica.

Entrevistador: Você tenta levar o paciente a descobrir as origens do problema?

Guattari: Não, porque as origens do problema não estão no passado, estão no futuro.
É ao construir outra coisa diferente que jogamos uma luz sobre o passado. Às vezes, é importante captar material do passado para construir algo para o futuro.

Entrevistador: Você fala em termos de Esquizoanálise, como nos seus livros, ou de maneira mais prosaica?

Guattari: Com cada paciente há uma linguagem que se instaura, uma língua menor, e certamente eu não chego com minhas cartografias para dar um curso de guattarismo!
Só introduzo elementos da minha própria teorização se eles vierem com evidência na construção de uma linguagem com o paciente.

Entrevistador: Então não há uma técnica sistemática?

Guattari: De jeito nenhum!”

GUATTARI — CONFRONTAÇÕES
Conversas com Kuniichi Uno e Laymert Garcia dos Santos
Editora: N-1 EDIÇÕES