Entende-se por câncer associado à gestação aquele diagnosticado durante o ciclo grávido-puerperal, ou seja, durante a gestação e até um ano após o parto.Um câncer diagnosticado durante a gravidez, de fato, estava em desenvolvimento há algum tempo. Por outro lado, uma neoplasia que acomete a mulher durante os 12 meses subseqüentes ao parto seguramente iniciou-se durante o período da gestação. Cabe ao ginecologista e ao obstetra terem uma rotina de avaliação cuidadosa que inclua também as mamas durante o acompanhamento pré-natal.

O câncer de mama na gravidez é pouco comum e acontece em apenas 1% ou 2% dos casos.

Na consulta de pré-natal, os médicos desempenham um papel fundamental no diagnóstico precoce dessa patologia, quando realizar cuidadoso exame. A mamografia, porém, devido à acuidade reduzida em mamas jovens e hipertrofiadas, não deve ser utilizada de rotina. No exame clínico das mamas, na presença de nódulo, deve-se realizar a Punção Aspirativa por Agulha Fina (PAAF), para avaliação citológica, e a ecografia mamária bilateral. O exame histopatológico deverá ser realizado, se necessário.

O tratamento efetivo do câncer de mama pode ser feito durante a gravidez e a equipe que está acompanhando discutirá sobre as melhores opções a serem oferecidas. Isto dependerá do tipo e extensão da doença, bem como na fase de gestação em que foi diagnosticado o câncer.

Hoje, as mulheres que são diagnosticadas como portadoras do câncer de mama durante a gravidez podem escolher entre dois tipos de cirurgia: a mastectomia radical modificada (remoção total da mama) ou cirurgia conservadora (com rescisão ampliada) seguido de radioterapia. Durante a gravidez, a cirurgia conservadora somente é oferecida a mulheres cujo câncer de mama é diagnosticado durante os últimos três meses, onde a radioterapia pode ser retardada até depois do parto. Nenhuma cirurgia de mama é realizada sobre anestesia geral, devendo haver uma preferência por bloqueios com sedação.

O tratamento conservador completa-se pela radioterapia da mama, mas essa apresenta contra-indicação durante qualquer trimestre da gestante, por isso não tem a preferência, exceto quando a gravidez possa ser interrompida logo.

Não há evidência de que o câncer durante o período da gravidez ou lactação poderia afetar o desenvolvimento do bebê. Além disso, o câncer não pode ser passado para seu bebê durante a gravidez. Não há evidência de que sua criança poderá desenvolver câncer na vida futura como um resultado de seu câncer de mama durante a gravidez.

Não há evidência conclusiva de que o câncer de mama durante a gravidez seja mais agressivo do que o câncer de mama ocorrendo em outros momentos. Entretanto, para algumas mulheres cujo câncer de mama é diagnosticado durante a gravidez ou lactação, poderá haver um retardo no diagnóstico em virtude da dificuldade de identificar um câncer em uma mama intumescida durante a gravidez, ou aumentada durante a lactação.

Mulheres com câncer de mama que se submetem a quimioterapia durante o segundo e terceiro trimestres da gravidez podem esperar complicações mínimas no trabalho de parto e no parto, em si, conforme relatam investigadores em artigo publicado no Journal of Clinical Oncology , na edição de março, 1999.

Se você está recebendo quimioterapia após o nascimento do seu bebê, você deve evitar a amamentação. Isto porque as drogas podem passar para o leite materno. Se você recebeu previamente radioterapia na mama e subseqüentemente ficou grávida, é previsível que a mama tratada produza menor quantidade de leite. Entretanto, existem alguns registros de amamentação com sucesso após a radioterapia, sem nenhum efeito para a mãe ou criança.
Após mastectomia, ainda é possível que você possa amamentar a partir de sua mama remanescente, em virtude da produção compensatória de leite nesta mama.

Outros pontos a serem considerados

Gravidez após câncer de mama
Uma gravidez subseqüente não parece estar associada com um risco extra de câncer. Entretanto, você deve evitar a gravidez por pelo menos dois anos após o diagnóstico do câncer de mama, pois este tempo é considerado o mais comum para recorrência da doença. A espera por este tempo, pode não ser apropriada para algumas mulheres, por isso se você pretende engravidar é importante conversar com seu médico. Ele irá lhe ajudar a tomar uma decisão com base nas suas circunstâncias particulares e decisões pessoais.

Interrupção da gravidez
Não há evidência que sugere que a interrupção da gravidez irá melhorar o prognóstico (resultado) para mulheres cujo diagnóstico é feito durante a gravidez. Uma interrupção pode ser recomendada se isto é necessário para fazer quimioterapia durante o primeiro trimestre. Uma interrupção pode também ser considerada se o câncer de mama está progredindo rapidamente e se dissemina para outras partes do corpo.
A decisão de interromper uma gravidez não é uma decisão fácil. Ela somente pode ser feita por você e seu companheiro, seguindo uma ampla discussão com seus médicos e obstetras, e fazendo considerações para sua situação particular. Para ajudar a tomar esta decisão pode ser útil conhecer mais sobre o tipo e a extensão do seu câncer, quais as opções de tratamento e quais as conseqüências se a gravidez for interrompida.

Fontes: Câncer BACUP U.K., J Clin Oncol 1999;17:855

Dr. Jaime de Queiroz Lima – Cancerologista/Mastologista
James Anthony Falk, PhD – Assessor do Grupo de Pesquisa