“Cuidar de mim mesmo não é auto indulgência, é uma auto-preservação e é um ato de guerra política.”

Audre Lorde

Autora do texto original: Sara Ahmed
Tradução do inglês: Larissa Brainer
Revisão e edição da tradução: Bruna Kern Graziuso

“Cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação, e isso é um ato político”

Esta afirmação é revolucionária e extraordinária. Uma frase muita amada e citada. É uma flecha que se torna afiada graças a sua própria direção. É do epílogo do “A Burst of Light”, de Audre Lorde, um material tão profundo, tão tocante, que nunca falha em me ensinar algo, com frequência me deixando desfeita, fora de mim. Este texto foi feito a partir de fragmentos ou notas organizados à medida que Audre Lorde descobria que tinha câncer no fígado, que a sua morte poderia apenas ser presa; enquanto ela sentia a inevitabilidade do diagnóstico. A expressão “Explosão de luz” é usada quando ela senta a fragilidade da situação do próprio corpo: “Essa sentença implacável de minha limitação física”.

Uma explosão de Luz é um relato de como a luta pela sobrevivência é uma luta cotidiana e uma batalha política. Alguns de nós, Audre Lorde nota, não foram destinados a sobreviver. Ter um certo corpo, ser membro de um certo grupo, ser algo, pode ser uma sentença de morte. Quando você não deveria viver, como você é, onde você está, com quem você está, então, sobreviver é uma ação radical; uma negativa à não-existência até o fim; uma negativa à não-existência até que você já não exista. Nós temos que descobrir como sobreviver em um sistema que decide que a vida de alguns exige a morte ou a remoção de outros. Às vezes: sobreviver em um sistema é sobreviver ao sistema. Podemos ser criativos, temos que ser criativos, Audre Lorde sugere, para sobreviver.

Alguns de nós.
Outros: nem tanto.

Quando um mundo inteiro está organizado para promover a sua sobrevivência, da saúde à educação, das paredes pensadas para manter sua residência segura, aos caminhos que facilitam seu trajeto, você não precisa se tornar tão criativo para sobreviver. Você não precisa ser visto como um receptor de bem-estar social porque o mundo promove o seu bem-estar social. Os benefícios que você recebe são entregues como obrigações, talvez até como direitos de nascença. Capitalismo racial é um sistema de saúde: uma distribuição drasticamente desigual de vulnerabilidades físicas. Ruth Wilson descreve racismo: “a produção e exploração supralegal e sancionada pelo estado de vulnerabilidades de certos grupos à morte prematura”(2007: 28) Ser pobre, ser negro, coloca sua vida em risco. Sua saúde está comprometida quando você não tem recursos externos para lidar com a vida em todas as suas contingências. E então, claro, você é considerado responsável por sua doença-saúde, por seu fracasso em cuidar de si mesmo melhor. Quando você se refere a estruturas, a sistemas, a relações de poder, a muros, você é percebido como alguém que coloca nos outros a responsabilidade pela situação que você falhou em não se colocar. “Você deveria ter se esforçado mais”. Oh, a violência e a prepotência desta frase, esta afirmação.

Estamos acostumados a essas lógicas; estamos tão acostumados a elas que temos nomes para elas (neo-liberalismo, pós-racialismo entre outras) e temos que continuar a ouvi-las.

Ao longo de “Uma Explosão de Luz”, Audre Lorde compara a experiência dela na batalha contra o câncer (e ela é favorável ao uso da linguagem militar, assim como é favorável a descrever essa situação como uma guerra) à experiência de lutar contra o racismo anti-negros. A comparação é eficaz, nos mostra como o racismo pode ser um ataque às células do corpo, um ataque ao sistema imunológico; de forma que seu próprio corpo vivencia a si mesmo enquanto mata a si mesmo, morte de fora para dentro. Um mundo contra você pode ser vivenciado como seu corpo se virando contra você. Você será levado à fadiga, à exaustão por aquilo que você é exigido a fazer.

Cuidar-se: como viver, como ser um corpo quando você está sob ataque.

Vamos voltar à nossa citação. Lorde diz que autocuidado não é auto-indulgência mas autopreservação.

Alguns têm que cuidar de si mesmos porque eles não são cuidados: sua existência não é protegida, apoiada, cuidada. Em meu próprio trabalho eu tenho pensado sobre privilégio social como um sistema de apoio: heterossexualidade compulsória, por exemplo, é um sistema de suporte elaborado. É como alguns relacionamentos são nutridos e valorizados, se tornando um meio de organização não apenas para o tempo de um, mas uma forma de compartilhar tempo e significado: como um “nós” tem algo; como um “nós” perde algo. Como você perde, bem como o que você perde pode se tornar até uma confirmação do valor do que você tinha.

Eu acho que uma das cenas mais tristes que eu já vi é do primeiro dos três segmentos que formam “If These Walls Could Talk 2 – Desejo Proibido, no Brasil (nota da tradução)”. Começamos com a intimidade quieta de duas mulheres, Abby e Edith, amantes, lésbicas, parceiras de vida. Abbie cai. Coisas acontecem; merdas acontecem. E então, estamos na sala de espera de um hospital. Edith está esperando.

Outra mulher chega, chateada, e diz: “eles acabaram de levar meu marido para dentro, ele teve um ataque do coração.” Edith a conforta. O apoio não volta: quando Edith explica porque ela está lá – “minha amiga caiu da árvore, achamos que ela teve um derrame” – a mulher pergunta “seu marido ainda é vivo?” Quando Edith responde, “eu nunca tive um marido”, a mulher diz, “Sorte a sua porque você nunca terá o coração partido ao perdê-lo”. Isto é como a heterossexualidade funciona como um sistema de suporte, como alguns corações partidos importam; como outros não. Quando um relacionamento não é reconhecido você é deixado a sós com seu luto. Não espanta que tantas de nossas histórias são partidas, histórias frágeis.

Privilégio é uma zona cinzenta, ao quanto você tem a recorrer quando perde algo. Privilégio não significa que não somos vulneráveis: coisas acontecem, merdas acontecem. O privilégio pode, contudo, reduzir os custos da vulnerabilidade, então, quando as coisas dão errado, você tem mais chances de ser protegido.

Quando apoio é uma questão de acesso você tem uma rede de segurança.

Eu penso que nesse posicionamento de que autocuidado não é auto-indulgência podemos ouvir uma defesa; Audre Lorde está defendendo o autocuidado. De quê? De quem? De, alguém pode suspeitar, da ausência de autocuidado como uma indulgência. Auto-indulgência tende a significar: ser condescendente, mas também pode significar “ceder às próprias vontades”.

Recentemente eu tenho percebido muito do trabalho feminista ser desqualificado nesses termos.

Feminismo: muito suave, muito seguro, muito focado no sofrimento individual. Eu tenho ouvido o feminismo ser desqualificado como uma forma de auto-indulgência.

Eu quero sugerir algo antes de formar um argumento consolidado. Isto é um palpite, se você prefere: algumas críticas do neoliberalismo têm permitido a desqualificação do feminismo nesses termos.
Claro, feministas têm colocado algumas das mais ferrenhas críticas às lógicas do neoliberalismo. E nós também temos algumas críticas importantes ao feminismo neoliberal. Por exemplo, Catherine Rottenburg mostra persuasivamente como pautas feministas são “simultaneamente neoliberal, não apenas porque renega as forças sociais, culturais e econômicas que produzem a desigualdade, mas também porque ela aceita toda a responsabilidade pelos próprios bem-estar e auto-cuidado, o que é cada vez mais fundamental para construção de um exitoso equilíbrio trabalho-família baseado no cálculo do custo-benefício” (2013:1).

Feministas neoliberais se identificam como feministas (o primeiro capítulo de Sandberg se chama “Internalizando a revolução”) porém de maneira tal que o feminismo é reembalado como algo relacionado a ascensão social para algumas mulheres, que aceitam as responsabilidades sobre “os próprios bem-estar e auto-cuidado”, uma forma portanto de distanciar-se das outras. Eu não tenho dúvida que nós precisamos tecer críticas a algumas formas de neoliberalismo e aceitar que tal feminismo pode ser cooptado como uma fantasia de mobilidade social da mulher branca.

O feminismo nas mãos neoliberais torna-se apenas mais uma forma de progressão de carreira: uma forma de “ser promovida”, não por reconhecer os tetos (e barreiras) mas assumindo que esses tetos (e barreiras) podem desaparecer por meio da persistência individual. E igualdade racial também tem modos neoliberais: como posto no filme Bend it Like Beckham, quando Jess ascende após deixar para trás sua experiência pessoal com racismo, como se você não fosse afetado pelo racismo quando você é bom o suficiente.

E perceba: essa retórica é similar a usada por anti-feministas e racistas, aqueles que falam que falamos sobre sexismo e racismo de maneira a não nos responsabilizar pelos lugares que não vamos; aqueles que dizem que nosso investimento nesses termos é a maneira como excluímos nós mesmas pela insistência em se excluir; aqueles que dizem que devemos “deixar para lá” no lugar de “levar adiante”.

Quando raça e igualdade de gênero tornam-se técnicas neoliberais, elas podem se tornar técnicas para conciliar desigualdades.

Audre Lorde, que está conosco hoje através das palavras que nos deixou, nos deu uma forte crítica ao neoliberalismo, mesmo que ela não usasse este termo. O trabalho dela é repleto de observações acerca de como desviamos das desigualdades estruturais quando as colocamos como responsabilidade dos indivíduos (que tendo a capacidade de superar as estruturas são percebidos como fracassados quando não conseguem superá-las). O trabalho de Audre Lorde explora como o auto-cuidado pode se tornar uma técnica de governança: o dever de cuidar de si geralmente posto como o dever de prover felicidade, florescimento, bem-estar.

De fato, em “The Cancer Journals”, Audre Lorde oferece uma crítica poderosa acerca de como felicidade se torna uma narrativa de auto-cuidado. Em face do discurso médico que atribui câncer à infelicidade e sobrevivência ou enfrentamento a ser feliz ou otimista ela sugere: “olhar para o lado bom das coisas é um eufemismo usado para obscurecer certas realidades da vida, as quais a reflexão franca pode ser uma ameaça ao status quo” (1997:76). Encobrir ou refugiar-se olhando para o lado bom da vida é evitar o que pode ameaçar o mundo como ele é. Lorde move-se desta observação para uma crítica mais ampla da felicidade como um disfarce: “Nos deixe perseguir a ‘alegria’ mais do que à comida de verdade e ao ar puro e a um futuro mais saudável em uma Terra habitável! Como se felicidade sozinha pudesse nos proteger dos resultados da loucura pelo lucro” (76). Lorde sugere que a ideia de que nossa primeira responsabilidade é pela nossa própria felicidade deve ser politicamente combatida, o que significa resistir à ideia de que nossa resistência falha em produzir felicidade: “Estive eu lutando contra a propagação da radiação, o racismo, a matança de mulheres, a invasão química da comida, a poluição do meio ambiente, e o abuso e a destruição da nossa juventude simplesmente para evitar lidar com minha primeira e maior responsabilidade de ser feliz?” (76). Eu acredito que Audre Lorde nos dá uma resposta para sua questão. E ela nos oferece outra resposta em sua pergunta: assumir que nossa primeira responsabilidade é com nossa felicidade pode ser a forma que nós terminamos não lutando contra

injustiça.
Temos algo para pensar aqui.

Audre Lorde escreve de forma persuasiva sobre como autocuidado pode ser obscuro, como cuidar de si mesma pode afastá-la do engajamento em certas tensões políticas. E ainda assim, em “Uma Explosão de Luz”, ela defende o autocuidado não como auto-indulgência, mas como autopreservação. O autocuidado se torna estratégia. Este tipo de autocuidado não é sobre a própria felicidade. É sobre encontrar caminhos para existir em um mundo depreciativo.

Em tempo: nos foram dadas algumas ferramentas para aprimorar nosso entendimento de como o neoliberalismo pode ser usado como instrumento. Existem diferenças que importam, diferenças que importam relacionadas a diferenças de poder.

O neoliberalismo sequestra muito quando todas as formas de autocuidado tornam-se sintomas de neoliberalismo. Quando o trabalho feminista, queer, e anti-racista envolve compartilhar nossos sentimentos, nossa ferida e luto, validando que o poder é algo que atinge até osso, é chamado neoliberalismo, nós temos que ouvir o que não está sendo ouvido. Quando feminismo envolve perceber o sofrimento de digamos, uma única mulher não-branca nas mãos de um sistema sexista, heteronormativo, e racista que é indiferente ao sofrimento que ele causa, a isso se chama neoliberalismo; e você estará reproduzindo mais do que desafiando a indiferença estrutural. E você também nega outras “outras histórias” que estão em jogo na luta para que seu sofrimento importe. Aqueles que não têm que lutar pela própria sobrevivência podem muito facilmente e até rapidamente apontar aqueles que têm que lutar pela sobrevivência como “autoindulgentes”.

Como o feminismo nos ensina: falar sobre sentimentos pessoais não é necessariamente sobre desviar a atenção das estruturas. Sobretudo, eu argumentaria o contrário: não atentar para certas histórias que machucam, que nos tocam no âmago, de como somos afetadas pelo o que nós lutamos, é uma maneira de desviar atenção das estruturas (como se nossa preocupação com nosso próprio sofrimento fosse o que o que impede que algumas coisas apenas “desapareçam”). Não é a única forma, mas é um caminho.

Se você tem um modelo que afirma que uma mulher que está tentando sobreviver a uma experiência de estupro focando no próprio bem-estar e segurança, tentando organizar formas para ela seguir em frente ou maneiras dela participar em algo sem que tenha que experimentar mais traumas (pedindo por alertas de gatilho em uma aula, por exemplo) é fazer parte das mesmas políticas que uma mulher preocupada com sua escalada profissional em uma empresa, então, eu acredito que este modelo está equivocado.

Eventualmente, “lidar com” ou “se virar” ou “tocar a vida” pode parecer uma forma de não atentar para desigualdades estruturais, beneficiando-se de um sistema ao adaptar-se a ele. Talvez precisemos perguntar: quem tem recursos suficientes para não ter que se tornar inventivo? Quando se tem menos recursos talvez seja preciso tornar-se mais engenhoso. Evidente: o requisito para se tornar habilidosa é parte da injustiça do sistema que distribui recursos desigualmente. Evidente: tornar-se inventivo não é mudança no sistema mesmo se isso faça a vida mudar (ainda que talvez, só talvez, uma recusa coletiva em não existir pode mudar o sistema). Contudo, supor que as formas com que as pessoas comuns lidam com injustiças implica uma forma de falha da parte delas – ou até uma identificação com o sistema – é outra injustiça que elas têm que administrar. Quanto mais recursos se tem mais fácil se torna fazer essa crítica aqueles cuja resposta ao sistema foi adaptar-se. Você pode não estar tentando ascender, ou progredir; você pode estar simplesmente tentando não ser derrubada. Histórias pesadas. Extenuantes, desgastadas.

Até mesmo se a mudança de sistema que precisamos, que lutamos por, quando o sistema não muda, as paredes sobem, aqueles recrudescimentos da história tornam-se barreiras no presente, você tem que gerir, que lidar. Suas escolhas são comprometidas quando o mundo está comprometido.

Não surpreende: algumas declarações antifeministas, anti-queer, anti-interseccionalidade (interseccionalidade como um código para pessoas não-brancas) vindas de “homens brancos de esquerda” se baseiam em nos culpar por sermos individualistas, indulgentes, preocupadas com nós mesmas e nossas “identidades” problemáticas. Me pergunto se Audre Lorde tenha tido que insistir que o autocuidado não era autoindulgência porque ela ouviu essa acusação. Me pergunto.

Recentemente, li umas críticas a feministas por chamarem indivíduos de racistas e sexistas, porque essas críticas negligenciam (nós negligenciamos) estruturas. Sério? Ou é porque quando falamos de sexismo e racismo você nos ouve falar de indivíduos? De repente, você está interessado em estruturas porque você não quer ouvir como você, indivíduo, pode ser implicado nas relações de poder que criticamos? Eu mencionei em meu livro “On Being Included” (2012) como pode haver uma certa segurança em termos como “racismo institucional” em um contexto onde indivíduos se deslocam das instituições e veem as a si mesmos como não inseridos.

E interessante: o indivíduo desaparece sempre que é cobrado. Ele provavelmente vai reaparecer como salvador da esquerda. Você pode ouvir, sem dúvida, meu cansaço e meu cinismo. Não me desculpo por isso. Estou cansada disso.

Alguns dos loquazes menosprezos à “cultura do escracho” fazem meio sangue ferver. Eu digo loquazes porque eles implicam que é fácil as pessoas exporem alguém, ou até que isso se tornou uma nova norma social. Eu sei, por acaso, como é difícil fazer uma denúncia de assédio sexual ser levada a sério. Indivíduos se safam disso o tempo inteiro. Eles se safam por causa do sistema. É normalizado e assimilado como a maneira como as coisas são. Uma mulher tem que se expor e testemunhar repetidamente; e ainda assim existe um sistema funcionando, que a impede de ser ouvida. Em um caso em que uma mulher é assediada por um homem, ela tem que se esforçar muito para expô-lo. Frequentemente, ela precisa continuar expondo, porque ele continua fazendo. Expor indivíduos importa, até quando o sistema é o que está machucando: a violência direta contra alguém é uma violência que deixa marcas visíveis ou não. E: existe um sistema que cria o homem e dá a ele a sensação que ele está certo em fazer o que ele faz. Desafiá-lo é desafiar o sistema.

Eu li um artigo antifeminista que implicava as feministas como individualistas, quando elas expõem um indivíduo homem, porque esta exposição é o que nos impede de trabalhar coletivamente por uma transformação radical. Coletivamente: pode funcionar para certos indivíduos como forma de disfarçar o interesse pessoal de interesse coletivo. Quando coletivamente demanda enclausurar uma experiência de opressão não é um coletivo pelo qual valha a pena lutar. E eu tenho visto isso acontecer com um desespero feminista: quando mulheres falam sobre abuso e violência sexual elas são tidas como atentados a toda uma coisa: um projeto, um centro, uma revolução. E os indivíduos os quais elas expõem são colocados como aqueles que têm que sofrer as consequências das queixas feministas, aqueles contra quem o dano pode ser generalizado (se “ele” se prejudica, “nós” nos prejudicamos). Quando o relato dela é entendido como um ataque à possibilidade de revolta contra um sistema, o sistema está sendo reproduzido.

Eu direi mais uma vez: o indivíduo parece desaparecer no momento em que ele é exposto e chamado à responsabilidade. Nós somos aquelas que então surgem como indivíduos, que são lidas como agentes individuais ou até como individualistas, enquanto ele desaparece em um coletivo.

Nos meus estudos de desejo e intenção, eu aprendi como aqueles que desafiam o poder são frequentemente julgados como pessoas que querem chamar a atenção para si, se colocar em primeiro lugar ou mesmo que estão se auto-promovendo. E talvez: o julgamento até faça sentido em um certo ponto. Talvez tenhamos que promover a nós mesmas quando não somos promovidas por virtude da nossa participação em algum grupo. Talvez tenhamos que ser assertivas apenas para conseguir aparecer. Aquele que consegue desaparecer rápido quando é chamado à responsabilidade pode rapidamente reaparecer ao final, quando uma ação é bem-vinda ou desejada.

Eu penso nessas diferenças como a maneira que fomos posicionados e em mesas. Duas mulheres sentadas juntas numa mesa, digamos. Às vezes, talvez seja necessário acenar, balançar o braço com vontade, para ser notada. Sem um homem na mesa você tende a não aparecer. Para outros, estar sentado não é apenas ser visto, mas ser dirigido ao seu lugar. Há permissão para pegar um lugar à mesa mesmo quando já se tem um garantido.

Você não tem que ser obstinado se seu desejo é atendido pelo desejo geral. É por isso que as desqualificações gerais do feminismo como políticas identitárias (e aqui também existe uma história da razão porque políticas identitárias se tornaram algo a ser desqualificado) necessitam ser tratadas como forma de conservadorismo: são tentativas de conservar o poder presumindo que aqueles que desafiam o poder estão apenas preocupados com si mesmos.

Um indivíduo é alguém que não é divisível em partes. Em Willful Subjects (2014), eu associei a história do indivíduo àquela que não precisa se dividir diante de uma história patriarcal, capitalista e colonial. Ele pode ser um indivíduo não-fragmentado porque outros se tornam partes suas: seus braços, seus pés, suas mãos, membros que estão destinados a darem suporte a este corpo. Quando uma secretária se torna sua mão direita, a mão direita dele fica livre. O trabalho dela é apoiar a liberdade dele. É assim que a questão do apoio nos traz de volta aos corpos, a como os corpos estão sendo apoiados. Partes intencionadas são aquelas que estão dispostas a prover este apoio. Assim rapidamente aqueles que resistem a se subordinar são julgados como individualistas, assim como obstinados. Negar esse apoio, se tornar partes dele, nos torna auto-centradas; negar cuidar dele, nos faz sermos julgadas como quem se importa apenas conosco, em que esse “conosco” é visto como singular e solitário.

Auto-cuidado: aquilo que pode ser um ato político. Ao direcionar nosso cuidado a nós mesmas nós direcionamos o cuidado para além dos objetos destinados, não estamos cuidando de quem supostamente deveríamos cuidar; não estamos cuidando dos corpos considerados como dignos de cuidado. E é por isso que o trabalho queer, feminista e anti-racista é sobre criar comunidades, comunidades de fragilidades, reunidas com base na experiência de ser despedaçado. Nos recompomos através do ordinário, todo dia e com frequência com um trabalho minucioso de cuidar de nós; nos preocupar conosco. É por isso que eu tenho que insistir, eu importo, nós importamos, nós estamos transformando o que importa. As vidas das mulheres importam; as vidas dos negros importam; as vidas queer importam; as vidas das pessoas deficientes importam; as vidas trans importam; as pessoas pobres; idosas; encarceradas; importam.

Para aquelas pessoas que precisam insistir que importam para importar:

Autocuidado é um ato político.

Agradeço a Audre Lorde pela sua sobrevivência.

Sempre.

***

Texto escrito e publicado pela autora no seu blog feminist killjoys, em agosto de 2014.

Referências do texto original:
Lorde, Audre (1988). A Burst of Light, Essays. London; Sheba Feminist Publishers.
—————– (1997). The Cancer Journals. Aunt Lute Books: San Francisco.
Gilmore, Ruth Wilson (2007). Golden Gulag: Prisons, Surplus, Crisis, and Opposition in Globalizing California. University of California Press.
Rottenburg, Catherine (2013). “The Rise of Neoliberal Feminism,” Cultural Studies. http://www.bgu.ac.il/~rottenbe/The%20rise%20of%20neoliberal%20feminism.pdf

 

Fonte: http://casadamaejoanna.com/2018/03/18/autocuidado-como-ato-politico/