Raull Santiago

Ouvir e valorizar a favela, um caminho para reduzir a desigualdade no Brasil.

 

RESUMO

O texto é um resumo do ativismo de direitos humanos que usa a comunicação independente como ferramenta para disputar narrativas e construir soluções em realidades desiguais e de exploração racial violenta, como as favelas do Rio de Janeiro, em especial o Complexo do Alemão, local desde o qual escreve Raull Santiago, integrante do Coletivo Papo Reto.

Palavras-Chave

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Iniciar esse texto foi bem complicado. Tentei escrever em diferentes momentos e lugares. Escrevi no bloco de notas do celular, por meio da digitação por voz, no computador. Várias tentativas, mas o meu tempo é curto, assim que o texto foi a junção de tudo isso aí.

Meu nome é Raull Santiago, tenho 28 anos e sou morador do Complexo do Alemão, um conjunto de favelas localizado na zona norte da Cidade do Rio de Janeiro. E é sobre esse lugar que vou falar, onde fui criado e onde vivo até hoje. Desde o complexo do Alemão faço uma leitura da situação atual do Brasil, a partir das nossas vivências.

Favelas são locais humildes, de muitas e ricas experiências de vida coletiva. Entre várias favelas e periferias do Brasil, o Complexo do Alemão é o meu lugar. Trata-se de uma favela muito conhecida, que apesar de ser um local incrível, tem sido explorada nos últimos anos na chamada “guerra às drogas”. Com a desculpa do combate ao tráfico de drogas, o governo mobiliza grande parte do seu poder militar contra a população, e nesse processo, muitas pessoas são levadas à prisão ou à morte. Principalmente a população humilde, o povo preto deste país.

Assim, a guerra às drogas é uma ferramenta moderna de controle racial e de manutenção da desigualdade social, pois acontece de forma desigual e cruel nos espaços mais humildes, nas favelas e periferias do Brasil. Nesse contexto, a polícia é a única política pública que chega de forma permanente. É um cenário de muita violência policial, onde acontecem enormes violações de direitos. Mas alguns políticos assim como a grande imprensa insistem em dizer que as favelas são o problema da sociedade brasileira. É sobre essa grande farsa que é construída uma imagem negativa de nós.

Para tentar frear a violência e a desigualdade racial que experimentamos no dia a dia e que se evidencia nas narrativas construídas sobre nós, criamos, junto a nove amigos e amigas o Coletivo Papo Reto. É um grupo que usa a comunicação independente para denunciar a violência, disputar narrativas a partir da nossa realidade, e propor formas de garantir direitos e fortalecer a favela como local de potência, através da ideia de “nós por nós”.

O Coletivo Papo Reto tem basicamente duas vertentes de atuação:

1) Comunicação de Resistência: usando tecnologias diversas para denunciar as violações de direitos cometidas pelo Estado, o objetivo é mobilizar redes e encaminhar denúncias junto a outras instituições públicas e da sociedade civil, tentando reduzir a forma violenta com que somos tratados diariamente.

2) Publicidade Afirmativa: por meio da qual trabalhamos a ideia de “nós por nós”, buscando fortalecer a favela e seus moradores, além de disputar narrativas com a mídia hegemônica que insiste em nos criminalizar, disseminando imagens que nos colocam como problema. Usamos a comunicação para mostrar as potências existentes dentro da favela. Através de ações de rua e programas online, buscamos apresentar um outro olhar sobre nossa realidade.

Atualmente, usando tecnologias como ferramentas para denunciar violações de direitos e violência racial, temos atuado em parceria com uma instituição americana chamada Witness, com a qual temos aprendido sobre segurança online e planejamento da segurança coletiva, além de estarmos experimentando e ajudando a desenvolver aplicativos e tecnologias que possam ser usadas por ativistas, por exemplo como cobertura audiovisual em locais de conflitos, para que as imagens capturadas sejam aceitas como prova judicial.

Um local em disputa

O Complexo do Alemão foi muitas vezes apresentado como símbolo do poder das máfias do país, mas nunca teve a oportunidade de ser apresentado de maneira positiva, mostrando quanto é um local de pessoas potentes e incríveis. A comunicação independente chega para suprir essa lacuna, expondo a mídia hegemônica como um dos grandes responsáveis por construir esse imaginário negativo sobre a realidade das favelas.

Em 2010, o Complexo do Alemão recebeu um novo modelo de segurança pública inspirado na Comuna 13 de Medellín, na Colômbia, onde há um policiamento presente 24h dentro da favela e onde também foi construído um teleférico, equipamento de transporte massivo de pessoas através de cabos.

Porém, na realidade do Brasil, a presença permanente da polícia é um verdadeiro problema que alimenta o número de confrontos, mortes e violações sofridas pela nossa população. O teleférico do complexo do alemão, que foi construído em 2011, e custou milhões de reais do dinheiro público, foi fechado há mais de um ano, tornando-se um símbolo mais de corrupção, mostrando a gravidade dos casos de roubos cometidos pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral – atualmente preso por corrupção.11. “Cabral é Condenado no Rio a 45 Anos e Dois Meses de Prisão por Três Crimes,” UOL, 20 de setembro de 2017, acesso em 13 de dezembro de 2017, https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2017/09/20/cabral-e-condenado-no-rio-a-45-anos-e-dois-meses-de-prisao-por-tres-crimes.htm.

Por outra parte, em 2007, durante os jogos do PanAmericano, mais de uma dezena de pessoas foi assassinada no Complexo do Alemão. Infelizmente, não foi a primeira vez que grandes eventos no Brasil significaram sofrimento e violação de direitos para a população das favelas e das periferias. Na Copa do Mundo e nas olimpíadas não foi diferente. Remoções e graves violações marcaram esses eventos.

Fonte: http://sur.conectas.org/as-vidas-nas-favelas-importam/