Psicologia em foco
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Trauma do Nascimento

Mariangela Gargioni Donice – Mestre em Psicologia -

De acordo com 1Bernard Montaud, logo que nos nascemos de uma maneira única, e que seremos até o fim da vida seres únicos. Todos os dias nós acordamos e nós, nos percebemos idênticos a ontem, justificando que é porque nos sofremos da mesma maneira todos os dias. O sofrimento humano é um mistério ao mesmo tempo em que ele é uma dor ele é uma maneira de se autoconhecer.

Montaud (2011), conforme seu relato nesta palestra procura introduzir um novo olhar para o nascimento, mais humanizado e cuidadoso com o bebê que está nascendo, pois se trata de um ser extremamente sensível e consciente do momento do parto, e que precisa ser acolhido por nós. Explica que, no nascimento o traumatismo perinatal é determinado por sete etapas:

A primeira etapa que se chama A Decisão de Nascer:

A criança vai se encontrar entre o amor magnífico que ele deixa e o amor terrestre ao qual ele vai se juntar. Ele vai estar em equilíbrio entre estas duas forças, que vai produzir o otimismo ao sair ou o pessimismo ao sair. Algo que vai fazer com que o nascimento seja uma coisa forte, que ele vai tomar o nascimento de uma maneira forte ou de uma maneira fraca que vai reproduzir nas etapas seguintes. Quando as pessoas encontram na psicanálise esta primeira etapa do nascimento, ele encontra por vezes os acontecimentos que já aconteceram durante a gravidez. Ele encontra o amor dos pais, ou o não amor dos pais na fecundação, ele encontra as tentativas de aborto, é muito impressionante perceber que durante a gravidez o bebe tem uma percepção bastante precisa de que acontece com os pais.

O acompanhamento do nascimento, com este enfoque, a criança já conhece bem os seus pais, no momento das primeiras contrações é feito uma declaração de amor entre os pais, para que a criança que esta diante da primeira etapa do nascimento esteja diante de uma renovação do amor de seus pais. Fazer com que a balança caia do lado que seja mais forte, do lado que valha a pena sair, porque eles se amam. No entanto, a criança nem sempre esta de acordo com isto. A primeira etapa vai criar um otimismo ou um pessimismo fundamental com relação ao nascer, e por vezes até em relação à vida, terminando a apresentação do corpo, ou pela cabeça da criança ou pelas nádegas. E nos sabemos atualmente que esta maneira de nascer ,como ela se apresenta, desencadeia as primeiras contrações, sabemos disto através da ciência.

Então começa a segunda etapa do nascimento que nos chamamos de o Longo Corredor do Ventre: que na realidade é um trajeto muito curto e que para a psicanálise é vista como uma batalha para sair. Este longo corredor do ventre tem um espaço tempo especial, e leis especiais. Este longo corredor do ventre nos sabemos, onde ele começa mas não sabemos onde ele termina , é como uma eternidade.

Neste longo corredor do ventre, vemos que existe um grande esforço cada vez maior para sair, e cada vez que a gente para nos sofremos, como se nesta segunda etapa o que não progride sofre; e acrescentada a isto as contrações maternais, que serão contrações que ajudam à saída ou que atrapalham a saída.

Mas sabemos que, o tempo todo existe uma relação muito intima entre a criança e a mãe, alguma coisa faz com que, o desespero seja sentido como: “quando isto vai acabar…” Nesta segunda etapa a criança tem a experiência fabulosa de agüentar e suportar.

Bernard relata e não se cansa de dizer que na Europa a criança que nasce é um gigante, o gigante que atravessa o país mágico nos quais os combates e as lutas são entre a vida e a morte, somente como testemunhas destes fatos, vemos os grandes mitos e os grandes contos da humanidade.

Então nesta segunda etapa do nascimento a criança vive na dimensão do não limite do infinito e vai passar para o campo do limite e do finito. Logo a criança vai aprender a ultrapassar a dor e a suportar as coisas, e aqueles que são esmagados pela dor terão dificuldades para progredir, como se nesta etapa nos fossemos mostrado a dor que é necessária para que consigamos progredir na vida. Como se nós estivéssemos sendo medidos ou tivéssemos passando por uma medida da dor que precisamos passar para crescermos para irmos adiante na vida.

Na terceira etapa: Gargalos-Barriga – O bebê está diante de uma solução que ele nega, rejeita com todo o seu ser; ele não pode forçar este ventre, mas a dor aumenta, a dor aumenta e lhe diz: se você permanecer você vai morrer e num certo momento ele é obrigado a vacilar de hesitar nesta decisão.

Uma vez nascido, o bebê pode provocar prazer ou não no adulto, desencadeando nestes bebês reações diferentes que, por sua vez vão realizar ou não o seu desenvolvimento. Nesta terceira etapa, nos vemos o quanto à criança luta consigo mesma, num certo momento ela percebe, que para salvar a própria pele, ela vai ter que forçar este ventre, e a dor suficiente que lhe dá a força para fazê-lo. Nesta etapa nos é mostrado que dor máxima é necessária para que consigamos atos heróicos. Então esta criança vai forçar este ventre e lógico que atualmente muitas situações, por exemplo, a cesariana modifica estas situações.

Na quarta etapa A criança sai forçando este ventre, ou pelos ombros ou pela bacia, e se encontra fora mais ainda ligada ao cordão, é externo ou fora, mais ou menos ainda dentro; mas a primeira coisa que ele descobre é o prazer de estar livre, como se ele experimentasse um orgasmo, a sua capacidade de prazer; de repente tudo aquilo que estava apertado se torna ahhh…

Mas o cordão será cortado, os pulmões vão se abrir e um grito, e a respiração vai se instalar e de repente o espaço e o tempo, da terra, segue a eternidade e o não limitado do ventre, com uma intimidade com a matriz e o ventre materno, tudo se torna uma solidão incrível, uma distância com a mãe com os outros, com a violência da luz, do barulho, uma temperatura que é difícil.

É a entrada no tempo-espaço terrestre, é entrar na distância com todos os outros, e somente o amor poderá atravessar esta distância no sentido inverso.

A quinta etapa – O encontro com a imperfeição humana – Amor/Condicional de seus Pais - a criança descobre amostras da humanidade que estão aí, a parteira, o ginecologista, o pai, é para a criança humana. Antes do trauma do nascimento nos percebemos tudo com os nossos grandes olhos, nós percebemos os pensamentos da parteira da ginecologista e a natureza do amor entre o pai e a mãe. O bebê percebe, com uma dimensão humana, como os homens não se amam entre si, descobre surpresa que os homens estão sem amor, e ele provem de um mundo de comunhão com o ventre, eles descobrem um mundo sem amor é o que dizem os psicanalizados nesta etapa.

A quinta etapa é O Encontro com a Natureza Humana, e a criança ainda não esta na natureza humana, porque ela ainda não tem o trauma que vai limitar os seus órgãos de nascimento.

Na sexta etapa Amor Incondicional de seus Pais – a criança diz a si mesma, mas a minha mãe não é assim, a minha mãe é plena de amor e ela pergunta:- Mas onde esta a minha mãe, onde ela está, onde ela esta?” Enquanto isto o bebê esta sendo lavado, pesado, limpo. “-” “Eu tenho certeza que a minha mãe não é como estes humanos, eu sei que a minha mãe é plena de amor, mas eu a machuquei agora pouco ao sair, talvez ela vá ficar com raiva de mim”.

E nós trazemos a criança… e a criança descobre que a mãe é como os outros

humanos, que ela esta sem amor e para a criança na sexta etapa, nós todos beiramos a loucura, para escolher a razão. Para que a razão tenha um sentido, é necessário ter experimentado o risco da loucura.

Na sétima etapa – Instalação da Tela protetora A criança descobre de repente que o mundo é um mundo sem amor; e ele vai ter que escolher a dimensão humana ou morrer; é aí que se instala o trauma perinatal, que vocês ouvem como algo dramático, que na realidade é algo magnífico. Essa criança vai escolher ver menos, para sofrer menos, respirar menos, para sentir menos, acabamos perdendo os nossos grandes órgãos do sentido, para ter a partir de então órgãos de sentido humanos.

Nas três últimas etapas aprendemos as 3 reações necessárias para sobrevivermos a situações difíceis, vamos repetindo o passado de reação em reação. Na vida, amamos muito uma pessoa,cansamos,separamos para outro recomeço. Recomeçamos o mesmo amor, com os mesmos processos de erro,para termos o mesmo fim.

Mas é preciso compreender a pedagogia da ordem das coisas, se nós na vida adulta fizermos uma reconquista de nossos órgãos de sentido, através de uma psicoterapia somática, de uma psicanálise, para que nos tenhamos grandes órgãos de sentido consciente, foram necessários termos perdidos. Para ter o prazer de ter reencontrado sua chave é: necessário termos perdido anteriormente.

O trauma que parece ser algo dramático é o meio que a natureza encontrou de nos tornar imperfeito na natureza humana, o homem é naturalmente imperfeito durante toda a sua vida, todo o seu amor vai depender desta situação, seremos capazes de amar o imperfeito ou detestar o imperfeito, sendo esta imperfeição que nos coloca na vida.

Bernard Montaud, conclui que caso nós fossemos perfeitos se esta etapa do

nascimento não nos conduzisse a qualquer trauma, nos não teríamos nenhum meio para sermos conscientes ou felizes, nos não teríamos meios para nos realizar através de uma superação de nos mesmos.

Ainda nem bem nascemos e já nos tecemos; a memória em curto prazo que aparece neste momento, permite as primeiras aprendizagens, Trata-se de uma memória sensorial, uma sabedoria do corpo, em certa medida, que fixa as informações vindas do exterior e dá forma às novas maneiras de agir. (CYRULNIK, 2001, p.28)

O vínculo com a mãe processa-se em condições seguras em 65% dos casos, relata Cyrulnik, no entanto é desorganizado em 5% dos casos, provocando um

desregramento desestruturante para a criança, também um acontecimento ofensivo pode surgir, colocando em jogo as instâncias biológicas, emocionais ou históricas do psiquismo.

As circunstâncias de um trauma não são, pois, excepcionais; mas, quando uma rede é assim danificada, as possibilidades de remendar as malhas são numerosas. A espiral positiva é que permite um aquecimento psíquico quando a criança aprendeu a se fazer amar, pode assim também transformar-se em uma espiral negativa.

A resiliência é constantemente possível, desde que a criança encontre um objeto que para si tenha significado. Entre os fatores favorecedores, encontram-se as múltiplas vinculações, mas também os circuitos afetivos ou institucionalizados que envolvem o sujeito ou ainda a idade (que determina o nível de construção do aparelho psíquico).

De acordo com Cyrulnik, (2001); três dimensões assumem uma particular importância à aquisição ou não de recursos internos, a forma como o trauma é assimilado e a oferta ou não de tutores onde se apoiar.

A resiliência é um processo: não é a criança que é anuladora, mas a sua evolução, tal como a vingança contra a sociedade ou a identificação com a sua própria tragédia que se torna então um modelo de desenvolvimento e de reprodução. No entanto, a intelectualização, o humor, o empenho social e a criatividade são vias reais que transformam o trauma em ressurreição e em emancipação em relação ao sofrimento infligido transformado assim num novo sentimento de si positivo.

A resiliência não é um catálogo de qualidades que um indivíduo possuiria.

É um processo que, do nascimento até a morte, nos liga sem cessar com o meio que nos rodeia.

Mariangela Gargioni Donice

Psicóloga, analista bioenergética (CBT),

Mestre em psicologia clinica e hospitalar, stress e psicossomática.

Rua Groenlândia, 197-Jd. Paulista.

Tel./fax: 11 3884-4702 cel.: 11 9911-3488

E-mail: mgdonice@terra.com.br

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Publicado por Libertas

1 comentário

  • Lea Guimaraes disse:

    Ola, Mariangela. Como vai?

    Que artigo fantastico. Lindo e real. Estou buscando alggum livro q fale deste assunto mas é tao dificil de se encontrar e de repente ca estou, lendo esse artigo lindo.

    Um verdadeiro presente.
    Ha mais algum material, neste sentido, que vc possa disponibilizar? Alguma indicação de livros?

    Se puder me auxiliar com alguma sujestao, ficarei imensamente grata.

    Lindo, lindo artigo. Estou feliz em te-lo encontrado.

    Muito obrigada.

    Léa

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