Comportamento
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Onde tu fores, eu irei

Moacyr Scliar – médico –

Pergunta: homem e mulher podem ser amigos, só amigos, mantendo uma amizade sem qualquer conotação sexual?

Moacyr Scliar

Não há, no Antigo Testamento, um texto mais comovente que o Livro de Ruth. O que temos ali é uma história que a gente lê como um romance. Tudo começa quando o personagem Elimelech muda-se, com sua mulher, Naomi, e dois filhos, de Belém, na Judéia, para Moab. Mudança complicada; embora moabitas e israelitas tivessem a mesma origem étnica, a rivalidade entre os dois grupos era constante. Mas os filhos de Elimelech e Naomi casam com duas mulheres moabitas, Ruth e Orpah. E aí a tragédia: os três homens morrem. Naomi resolve voltar para a Judéia e recomenda às noras que se juntem às suas famílias moabitas. Orpah concorda com isso. Mas Ruth (cujo nome significa “compaixão”) tem uma atitude diferente. Ela não abandonará a sogra e aí diz aquela frase que atravessou os milênios: “Onde tu fores, eu irei; onde descansares, descansarei; teu povo será meu povo, teu Deus será meu Deus; onde morreres, morrerei e ali serei sepultada”. A história tem um final feliz. Ruth se casa com Boaz, parente de Naomi, e tem um filho, que, portanto, dá continuidade à linhagem de Elimelech e Naomi. Desta descendência, nascerá o maior dos monarcas de Israel, o rei David.

O Livro de Ruth surpreende por várias razões. Em primeiro lugar, embora na Bíblia personagens femininos sejam tratados com respeito, neste trecho as mulheres são verdadeiras heroínas. Em segundo lugar, por causa da relação entre Naomi e Ruth, que é um antídoto contra a velha idéia de que sogras e noras não se acertam. Depois, mais importante, é a celebração da amizade.

Um tema que, às vezes, é tratado com desconfiança e até com suspeição. Amizade entre pessoas do mesmo sexo, hum… Será que não tem coisa aí? Coisa, neste contexto, é homossexualismo, claro. Mas será que a suspeita procede? Será que uma amizade legítima, às vezes nascida no sofrimento, como acontece nesta história, não é algo inspirador? A história e a literatura estão cheia de exemplos neste sentido: a Ilíada, por exemplo, celebra a amizade entre Aquiles e Pátroclos.

Pergunta: homem e mulher podem ser amigos, só amigos, mantendo uma amizade sem qualquer conotação sexual? Esta é uma situação que classicamente surge quando um casal desfaz uma relação: “Agora, somos só amigos”. Mas, e um homem e uma mulher que, por alguma razão, convivem, podem manter essa convivência só no plano da amizade? De novo, os céticos dirão que não acreditam nisto, que alguma sacanagem tem de haver. E eles têm certa razão. Um estudo publicado no Journal of Social and Personal Relationships, no qual 150 profissionais de ambos os sexos foram entrevistados, dois terços deles disseram que um componente sexual estava presente nas suas relações com o outro sexo. Mas, quando não chegam às vias de fato, a amizade se revela gratificante, sobretudo para os homens, que, neste estudo, valorizaram muito mais a amizade com mulheres do que com outros homens. E, quando a amizade está consolidada, costuma ficar só na amizade. Um estudo feito com 300 estudantes da Penn State University (Estados Unidos) mostrou que 56% deles preferiam não transformar a amizade com outro sexo em ligação erótica. Onde tu fores eu irei, mas não necessariamente para a cama.

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Publicado por Libertas

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